NALDOVELHO - POESIA


É TEMPO

NALDOVELHO

 

É tempo de caminhar em silêncio, o sol entardece lá fora, primavera ardida de outubro, logo-logo anoitece, e a lua vem nos abençoar.

 

É tempo de fazer uma prece, para todos os estranhos deuses que habitam nossas entranhas. Cada um de nós tem o seu! Alguns, até, mais de um!

 

É tempo de dizer te amo! E que apesar de todos os enganos, melhor não poderíamos fazer. Até por que não saberíamos, ainda há, muito, o que aprender.

 

É tempo de beijar nossos filhos e pedir perdão pelos desatinos, pelas heranças amargas e insanas, semente de erva daninha que erramos ao cultivar.

 

É tempo de abrir portas, janelas, porteiras, cancelas; romper fronteiras distantes,acabar de vez com as esperas... Não tarda alguém vai chegar!  

 

É tempo de abraçar os amigos, dizer do aconchego preciso, olhos nos olhos sem mascaras, tocar o coração do inimigo, semear compreensão.

 

É tempo de brindar nossas vidas, de curar em nós as feridas, de enxugar de vez todo o pranto, pois apesar de toda a loucura, agora é hora de consertar.

 

É tempo de tomar o trem! Amanhã, antes do anoitecer, quando o sino tocar seis vezes, aonde quer que estejamos, estaremos pensando em vocês.

 

É tempo de dizer adeus! Faz de conta que fomos melhores, pois não foi tão grande o estrago.Quem sabe uma nova chance? Custa nada acreditar!

 

 

 



Escrito por NALDOVELHO às 19h34
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CAIPIRA

BEATRIZ ESCÓRCIO CHACON

 

Sou chegada a vertigens

dou faniquito

elevador desarranja

computador me dá frio

me perco na Praça 15

não confio nessas máquinas

triturar e bater ponto.

Eu sou de bater na tecla

transpirar uns versos

minha máquina caipira

se ilumina de lilás

escreve ferrugem com todas as letras.

Eu só confio no sonho

na ponta do dedo

meu cigarrinho matuto na lábia

penhoar de poá pela casa

carbono e caneta bic

fita que enrola

limpa-tipo tira-erro

toque mágico.

Sou assim mesmo manuscrita

de profissão datilógrafa

acredito é no parto normal

minha lousa toda borrada

minha Olivetti pequenina.

 

Para Rita Maria de Lacerda



Escrito por NALDOVELHO às 18h59
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POSES

Teresa Mello

 

Vejo minha alma destoando da foto

Parece que existem duas ou mais

pessoas em cena

Uma dando lugar à outra,

disputando poses e olhares

para ver quem sai melhor na foto.

O sorriso vira um comercial

previamente ensaiado e esbranquiçado

O olhar interpreta exatamente

a cena encomendada pelo diretor 

As luzes determinam

quantas pessoas vão sair na foto

Há dias em que venho com cinco ou dez

Noutros só tenho uma parceira

Aparecer sozinha depende

de um cachê bastante alto,

Depende de mandar aquela gente toda esperar

dar atividade pra elas,

distraí-las,

suborná-las,

numa tentativa

de aprisioná-las

até a entrada

da próxima cena...

Do próximo espetáculo...

Fecho as cortinas...

 



Escrito por NALDOVELHO às 00h55
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RECICLAGEM
Teresa Mello


Desde ontem minha alma
está agradecendo o novo lustre
Abri algumas portas e deixei
que a claridade de alguns gritos
invadisse meus póros
Escancarei outras portas
e permiti que lágrimas
de todas as cores
escorressem pelas ruas de mim
Dei vazão ao gozo da alma
e me inscrevi uma vez mais
na reciclagem do prazer
do belo,
do enigmático
do inexplicável...
Dancei com alguns deuses
e esvaziei minha timidez
de forma despudorada
Destranquei meus erros,
minhas névoas,
ri escandalosamente
e dormi como um anjo...



Escrito por NALDOVELHO às 00h54
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POEIRA

NALDOVELHO

 

É o curso de um rio em direção ao mar, é um cardume de peixes vagando pelo oceano, é uma gota d’água se evaporando ao sol e as ondas do mar a lapidar o rochedo.

É uma lágrima derramada por um amor perdido, é um grito de socorro no meio da vida, é uma estrela cadente em direção ao nada, é uma chegada a lugar algum, é uma partida pra lugar nenhum, é um barco sem porto, sem rumo, é um cais sem amarras, é uma nuvem cigana, é um coração calado, é um trem fora dos trilhos.

É a minha voz sufocada, é a estrada e o corte, e os cacos de vidro espetados no corpo, e a chuva caindo... É o café quentinho, depois o cigarro, é madrugada ainda, é noite de insônia, é o bar da esquina da rua lá de casa, é o jornal matutino e as notícias gritando: é o sangue na rua, é o menor abandonado, é o pivete armado e o espinho espetado na palma da mão.

É um homem chorando e as folhas caindo pelas ruas da cidade, é outono... E os meus olhos parados e a garganta engasgada, é o medo da vida, é a vida que segue, é a solidão do meu quarto, é a poeira na estante e os livros guardados e a mesma música estridente a violentar meus ouvidos, e o violão calado.

É o mesmo perfume de sempre trazendo saudades, é o sol que nasce todos os dias, é a lua amiga, companheira constante, é a sede, a fome e o sono. é a poeira e os cacos espalhados pela casa, é um homem cansado que insiste em sorrir, é a crença em Deus sempre presente, é a poesia e o sonho, defeitos de um tolo, é a nostalgia presente em cada detalhe, é a semente plantada, esperança de vida, é a vida de um homem que acredita em seus sonhos.

 



Escrito por NALDOVELHO às 23h27
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POEMA DE AMOR

NALDOVELHO

 

A campainha da porta, não toca!

A fechadura emperrada, enferrujada.

Um vaso de vidro, flores murchas num canto.

O rádio ligado não sintoniza nada!

A vidraça embaçada, chove aqui dentro.

Lá fora a cidade agoniza e chora.

Os carros que passam atropelam as horas.

O sinal está fechado já faz um bom tempo

e as pessoas assustadas, apressadas, nem olham,

tropeçam e caem, levantam e fogem.

Na parede do meu quarto um quadro sombrio:

paisagem de outono, folhas caídas, abandono.

O papel sobre a mesa, o cigarro entre os dedos,

a ardência nos olhos, faz tempo eu não bebo!

Faz tempo eu não choro, não sonho, não oro.

Na gaveta da cômoda um maço de cartas,

escritas, aflitas, gritos de amor.

Nunca foram postadas, não sei teu endereço!

Amanhece lá fora, aqui dentro o silêncio.

Já não chove aqui dentro, agora chove lá fora.

Lá no fundo do meu umbigo: esforço, esboço,

tentativas fracassadas de um poema de amor.

 

 



Escrito por NALDOVELHO às 15h33
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TEIA

 

Emissão de sinais

código cifrado

entrelinhas

olhares

imperceptíveis teias

e

visgo:

crime premeditado

de aranha

 

          Depois do fim,  fui pra casa e comi três girassóis.   Devagar,  feito  um  crime  premeditado,  dispondo as pétalas  -  escancaradamente  amarelas  sob a farinha  amarga de grãos, tudo regado a molho shoyo.

 

          Lembrei  Van Gogh  e  seus  girassóis.   Girassóis, girassóis.  Gira só.

 

 

MARIA HELENA LATINE

 



Escrito por NALDOVELHO às 15h20
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Luciana Montechiari

 

Dentro desse peito, cactos.
Dentro desses ossos, caatinga.

Essa aridez de duna, esfinge só.

 

Será que perdi o trem?

Já deu hora?

 

Essa arbusto seco, essa galho seiva.
Falta fermento nesses campos

A nascente o olho d´água
Choram pra dentro da terra – onde ninguém pode ver
Ninguém sente
Ou fareja
Ou pressente
A presença do arbusto só

Morto

Sim, no talo há seiva
Seiva como sangue
Sangue como o pão

 

Sinto-me só

 

Será que perdi o trem?

Já deu hora?

 



Escrito por NALDOVELHO às 15h17
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palavramentos

nanamerij

 

Ele espiou para os meus lados, e disse: - que tanta invencionice de palavra... Nos arregalados de seus olhos, li: - é de carecer?

Fiquei costurando compreensão, achava que o moço queria me ofender não. Expliquei, é tudo palavramento de quem veio nascido da roça, de gente do mato, que fala com bicho, tem  proseados com flor, entende dizeres de passarinhos, sabe das falas de rios, que acha toda distância, só encurtamentos, pois qualquer lugar.. É logo ali. Inventei nada, peguei, desde menina, nas conversas catadas, nos escutados de enredos, nos aprenderes com meu povo, simplinho de nada, mas de sabidenças inteiras, sobre  aguaduras, desalegrias,  fundezas,  gasturas. Um povo desapressado, que sabe macerar tudo  nas paciências e temperanças da fé, deixando dormir noites demoradas no sereno, até que vire bondade-boa de viver e derramar na vida.

O moço, desentendido, pergunta: - é o que é aguadura, que tal de fundeza é esta?

Tinha mesmo é precisão de explicar, pois vi gasturas  nos interrogamentos que fazia.

Ó moço, aguadura, é quando alma entristece, seja por quebranto, seja por espinhela caída, seja até por dor de cólica, com cometimentos mais nas meninas-mulheres, pois que menino-homem pode até sentir, mas esconde, já que  nos machos , dizem... Fica bonito não, estes sentires. Ah!... Mas que são acometidos, são sim!

Já fundeza... Misericórdia! É um aperto, um fincado lá dentro, uma coisa desensofrida, que faz a gente ventar de um lugar para outro sem tomar assento em canto nenhum, nas desempatias por qualquer gosto, dá até de matar, por causa  de que fica doendo, doendo, doendo tanto, até que o desinfeliz da vida perde motivos, pega esquecimentos  dos  encantos.

- Sei...

Respondeu, jeito de boi sonso, cara de burro fugindo. Penso que compreendeu nada. Há de ser... Porque o moço tem letras de sabedorias finas, ou sentires sem batismo de nomes. Vai-se saber! Pode ser tudo... Até fome. Pode ser, porque sou mesmo fraca em explicadez. Cá comigo, acho que o moço despercebe, mas padece é de sozinhez!

 



Escrito por NALDOVELHO às 09h46
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What a wonderful WORLD

Belvedere

 

Houve um tempo em que não precisávamos de muitas palavras para viver em sintonia. A vida fluía de forma simples, mas nem por isso com menos emoção.

Houve um tempo que sequer percebíamos a escassez das coisas.Tudo parecia perfeito, em plenitude.

Recostada a um sofá estilo art-déco, ouço Louis Armstrong - What a wonderful world... - Sua voz eriça meus pêlos e, como uma gata, me enrosco, revendo mentalmente cenas de um passado longínquo e ingênuo, quando simples trocas de olhares eram celebradas com tons que só almas puras possuem.

Narcisa, com seu carrinho-de-mão de casa em casa, recolhendo tralhas. Era a xepeira. Gostava do ofício.  Com voz rouca, gritava: - Quem tem?  E a alegria explodia a cada quinquilharia obtida. Onde arrumava espaço para tanta desnecessidade?

        Por onde andará Narcisa?

Sirenes, correrias, pivetes atacando nas esquinas, mendigos sob as marquises, seqüestros-relâmpagos, chacinas. Negação da cidadania.

Procuro meus licores...

Na bombonière encontro um bombom Sonho de valsa; o mesmo daqueles tempos cheios de louvores quase sacrossantos. Ao longe por coincidência, ou sinal de Deus, ouço o badalar dos sinos. Mastigo o bombom, que se dissolve pouco a pouco na língua, e sinto um prazer indescritível.

 

 E os sinos tocam. Vibrantes. Por mim!

 



Escrito por NALDOVELHO às 19h58
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Fica!

 Belvedere

 

Peço que não vás.

Fica mais um pouquinho.

Como  passarei os dias

sem ouvir teu riso e sem fitar

o  verde- musgo de teus olhos?

 

Peço que não vás.

Há um chamado do mar, do sol,

das flores, (sobretudo das azaléias),

pedindo que fiques.

 

Por  isso,  não vás!

Dize-me que nada do que falam

é verdade,e que nunca houve

prenúncios de partidas...



Escrito por NALDOVELHO às 19h47
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QUERO-TE MAR

Maria Petronilho

 

Não te peço a quietude ribeirinha,

tranqüila, mansa, esverdeada,

da doce água parada.

Peço-te ondas, peço-te sal,

peço-te exaltadas ânsias,

que saltem de encontro às minhas.

 

Não quero ser margem branquinha,

tranqüila, passiva.

 

Quero-te mar minha margem

de arriba perdidamente perdida,

enseada, escarpa polvilhada

de fúlgidas gritantes gaivotas.

 

Mas vem de manso, maré baixa,

deixa que a rocha tão seca

a ti se abra faminta da tua procura.

 

Deixa-me encontrar

a tua sede na minha,,

deixa acontecer,

fluir meu ser,

 

até teu querer encontrar.

 



Escrito por NALDOVELHO às 20h45
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SALGADA

LUCIANA MONTECHIARI

 

I

Filete muralha - ameaça

represa – eu tem nome:

chama inundação

broto d’água tragédia 

II

Pedra – eu rachadura

frágil dureza

Pressão corrente sangüínea

fissura

III

Padre – eu asperge de água benta

seu calor e seu dia

com água salgada nos olhos

Salgada

IV

Sobraram areias duna

onde germinam plantículas

tentativa de flores

água de mim.



Escrito por NALDOVELHO às 13h05
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O GOSTO DE ALMAS

Luciana Montechiari

 

Gosto de xícaras.

Gosto de xícaras brancas

com beiradas bordadas de jasmim, 

que abrigam o chá de almas,

fluído das lágrimas, mares de sal.

  

Xícaras brancas com beiradas de rosas

que envolvem o conteúdo

do calor de almas que se abraçam.

 

Gosto do silêncio das xícaras brancas

e do calor saltam dançarinas 

o bordado de jasmim sorri.  

 

O chá de almas exala fadas brancas, diáfanas

que dançam no ar por segundos e morrem,

espalhando o perfume das frutas e das flores ...



Escrito por NALDOVELHO às 13h02
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PARA AQUELA OUTRA

BEATRIZ ESCÓRCIO CHACON

 

Vou comprar revistas de moda

e bijuterias

uma linha completa de maquiagem

e cuidados de pele

eu vou colocar um lamê

e sapatos de salto

na minha poesia.

Toda a roupa de baixo

escandalosamente rendada.

Pra mim já me basta

um pó translúcido

um corretivo pra olheiras

uma metáfora.

Uma sapatilha e um algodãozinho

de andar em casa.

Ela é que precisa andar

se enfeitar pra encontros

fazer vista fazer festa

falar com tudo que é gente

se retocar a cada espelho.

Vou comprar a revista mais fina

da última moda.

A moça feia mais linda

de tudo que é canto

será minha poesia

alegre ou triste

voltando pra casa da minha insônia

com tudo que é homem.

 



Escrito por NALDOVELHO às 13h00
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Trigo Fênix

Luciana Montechiari

 

Por esses imensos trigais,

insetos, dores, partos e partidas,

ziguezagueiam – correntes de ar.

A semente amarela esmigalhada,

morre semente e renasce pão.

Esse trigo fênix,

trigo parto,

trigo partido,

trigo sangue, filho da puta – filho da dor.

E no meu peito,

esses imensos trigais se entrelaçam

Vida e  morte, Luciana,

se cumprimentam e se abraçam,

esmigalhando o trigo, filho do teu eu

que sai do teu chão adubado

e se doa para a morte – alimento.

É preciso seguir

com dores, horrores e Iraques,

romper a placenta, ser o pão.

 

Morte e vida.

 

E no meu peito, esses imensos trigais...

 

 



Escrito por NALDOVELHO às 12h58
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Suave Pérola

Maria Petronilho

 

Comovida, indecisa...

Saudade triste serenamente desliza.

 

Quem ousará libertar-me a alma

dos segredos que trago?

 

Quem suavemente

levará pra bem longe esta angústia,

para que eu possa ficar limpa e calma?

 

Suave saudade, segredo que eu trago...

Perola escondida, poema de amor e dor.

 

Lisboa, 07/10/2005

 



Escrito por NALDOVELHO às 00h05
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