NALDOVELHO - POESIA


LÁGRIMA INCONVENIENTE

NALDOVELHO

 

        Palavras amordaçadas, sufocadas, soterradas, poemas insurretos, só sobrevivem nos sonhos. A emoção que se esconde sorrateira entre os dentes, lágrimas indigentes, represadas, latentes.

        Não posso confessar que te amo! Não devo declarar que te quero! Não quero mais a dor de um quem sabe?  Pois o meu sangue hoje se arrasta por vias estreitas, congestionadas, e pelos capilares já nem passam! Por força de tantos atritos, conflitos, detritos... Se eu insistir, enfarto!

        Melhor colar em meus lábios um sorriso, um que seja bastante convincente, mas não a ponto de ser contundente, senão pode soar falso e servir aos descrentes que vivem a buscar um sinal de fraqueza que possa me denunciar. Deixe que permaneçam desatentos, não devo demonstrar meu desalento, não posso mais dar asas à incerteza, ainda que a tua imagem assombre os meus mais íntimos desejos, pois na cabeceira da minha cama permanece o teu retrato.

        Continuo sendo um romântico, só que não mais um confesso, pois o amor que eu ainda professo, a ninguém posso revelar.

        Enquanto isso, qualquer lágrima será vadia, indigente e inconveniente, de preferência chorada no chuveiro que é para ninguém notar.

 



Escrito por NALDOVELHO às 12h30
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IN (CON) STANTE

Dalila Langoni

-TIC-

Hesitação.
Transpiração.
Conspiração
Dos meus neurônios.

Meio segundo
O dia adia
A noite urgente
O fim do mundo
A palma fria
O sangue quente
O grito mudo
O dia-a-dia
Adia
A gente.

O eco
O muro
O cerco
O tiro
O beco

O escuro.

-TAC-

 



Escrito por NALDOVELHO às 12h24
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Poemas

Antonio Sanches

 

Quantos poemas escritos

quantas palavras proferidas

alguns pensamentos malditos

bastantes frases queridas.

Lembranças, desejos e arrependimentos

amor, ódio e ternura

fazem por alguns momentos

vibrar qualquer criatura.

Mas qualquer um é poeta

basta colocar para fora

o que na mente se forma

e sem medos nem meta

na forma em que aflora

abrir-se para alem da norma.

Mostrar a pura realidade

que se desenha na mente

e mesmo até com a maldade

dizê-la de repente.

Maldade sim, disse bem,

porque confessar o que se sente

às vezes faz muito bem

outras magoa a gente

 

 

 

 

 



Escrito por NALDOVELHO às 12h18
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A alma das pedras

Maria Petronilho,

16/10/2005

 

A minha alma como pedra,

range, balança, cai e se quebra.

Quem disse que pedras não sentem?

O ruído dos trovões,

a inclemência da chuva,

a torrente dos rios...

Raízes infiltradas em minhas veias.

Antevejo a derrocada,

aprisionada em mim mesma,

só me é permitido ruir,

às cruas mãos alheias.

Os que não acreditam na alma

nem ouvirão meus gritos.

 

 



Escrito por NALDOVELHO às 23h11
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SOLILÓQUIO NO PARLATÓRIO

Helena Istiraneopulos 

 

Oras,
se te falo, logo, então descompreendes
ou confundes, ou transformas,
não é mais o que falei.
Minhas idéias não são mais minhas,
são do ar, e depois tuas,
ou vossas, ou de ninguém.

Egoísta?
Bem prefiro tê-las comigo,
se soubesse de um arquivo
idéculo.

O meu só, para mim somente
para ti solidão, pra os outros sol,
ou nota musical.
Ah! Minhas idéias não são mais minhas
deve ser o contato com a língua,
que prova tantos sabores,
e confunde os dizeres.
Mas digo o que penso! Ou omito? Não minto.

Tal polén no fecundo ar,
vão brotar em outros androceus, gineceus
oh, hibridismo, e da parte que colaborei
pode sair uma goiaba, um crisântemo,
um aniversário, ou outro polén.

Há quem diga que depois da via-láctea
perto da fábrica dos anos luz,
há um grande galpão,
onde as palavras fugidas vão habitar.

E brotam em planetas, por isso há tantos
quantos os vernáculos pronunciáveis,
e o universo pode vir a sofrer de planeticite.

Uma infecção nos vazios
cuja solução é a telepatia.
Vocalicites.
Terei que ficar falando sozinha?

 



Escrito por NALDOVELHO às 20h35
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DAS POSSIBILIDADES

NALDOVELHO

 

É possível quê, qualquer dia desses, eu vá até Índia,  e lá estando, purifique o meu corpo no Ganges. Depois: vá conhecer o Taj Mahal e, finalmente, num templo budista, devidamente incensado, consiga elevar de vez minha alma e atingir o tão falado Nirvana.

É possível quê, nesse mesmo instante, do outro lado do oceano, alguém esteja a dizer: quantas besteiras fizemos! Poderia ter sido diferente.

É possível quê na minha volta ao Brasil, quando a caminhar pelas ruas da cidade, eu morra de bala perdida. Afinal estamos no Rio de Janeiro e, esse tipo de coisa, já faz parte do cotidiano. É possível, porém, que isso não aconteça e que o meu Santo Padroeiro continue a abençoar o poeta, mantendo-o vivo e por inteiro.

É possível quê, sobrevivendo, eu escreva um livro de contos. É possível, até, que eu continue a escrever poemas e componha de quebra uma linda cantiga, só para enaltecer em nós, os desencontros desta vida.

É possível quê a Poeta da Pena Inquieta, descubra que o velho que lhe levou as ervas, vez por outra, lhe faz uma visita e, encantado pela qualidade dos seus versos, diga assim orgulhoso: eu bem que avisei!

É possível quê, qualquer dia desses, eu tome um trem e vá a Recreio, e de quebra dê um pulinho até Leopoldina...  Quem sabe possa descobrir o paradeiro da Nana? Impossível, vai ser, não visitar a Chácara do Desengano. Quantas preciosas lembranças eu guardo daquele lugar.

É possível quê, um dia desses, a Carolina Ferraz, ao olhar bem dentro dos meus olhos assim diga: Eu nunca te vi, mas sei que te amo!  É possível que o leitor desavisado, ao ler esta prosa, assim diga: coitado! Ainda não desaprendeu a sonhar.

É possível quê aqueles que hoje se escondem e se negam ao poema, descubram que a dor que se faz contida explode um dia em ferida, difícil de se curar.  É possível que descubram o endereço: estação dos versos confessos, onde o lapidar constante transforma coisa cristalizada em prosa.

É possível, infelizmente, que nada disso aconteça! No entanto, sempre valerá a pena, pois já disse: sou um tolo, um poeta, que acredita até gnomos.

 



Escrito por NALDOVELHO às 01h25
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