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Escrito por NALDOVELHO às 12h51
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o amante
líria porto
de repente ela ria
saía da concha
áspera por fora
por dentro de seda
lembrava-se dele
daquele sem-vergonha
ele vinha
brincava com ela
de frente de costas
deixava nas fronhas
o riso a pressa
e partia
ia para longe
lá onde lhe lavavam
as cuecas
Escrito por NALDOVELHO às 19h32
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LUGAR NENHUM PRA CHEGAR
NALDOVELHO
No cais um navio, chegou faz um tempo. A campainha da porta há tempos não toca e o telefone quando toca: desculpe, é engano! Nas esquinas: muita pressa, poucos sonhos, muito medo, pouca conversa e o navio no cais permanece ancorado, quieto, em silêncio.
Da janela percebo o outono, mês de março, abandono, pássaros em debandada, prenúncio de chuva, vento varrendo a cidade, trânsito engarrafado, e o sinal demora, quando fechado; ônibus lotado, e aqui em meu quarto: apreensão! No cais o navio, ainda ancorado.
Ligo a televisão e as notícias que chegam já não causam espanto, mas ainda assim doem! Crianças marginalizadas, prostituídas, de arma em punho, soldados indigentes de uma guerra sem escolha, sete corpos encontrados e quatro deles nem tinham quinze anos! E o navio no cais, ancorado, sem sinal de partida, nada que explique a demora.
Aqui em meu peito a dor de saber o quanto somos coniventes, o quanto somos responsáveis por ação ou omissão, por termos permitido que nos pusessem à deriva, por termos aceitado a merda desse navio ancorado, em silêncio, nada que justifique tanta passividade. Resultado: nenhuma novidade no cais!
Anoitece, agora chove, e dos longes mais notícias... Parece que as coisas por lá, também, não andam nada boas. Guerra, fome, desrespeito a natureza, risco de epidemia cada vez mais presente e as pessoas ancoradas, já tem um bom tempo, em silêncio.
Pego um livro de poesia e leio a dor de uma partida: o poeta se fez de louco enclausurado em seu quarto, nostalgia sem tamanho, mazelas de um coração. Quanta beleza ainda encontro nas palavras de um tolo, de um bardo sem consolo que se alimenta da ilusão.
No cais a multidão se aglomera, ora a Deus por um sinal, que o navio parta bem depressa... Mas o navio permanece ancorado, impossibilitado de navegar, já faz tanto tempo, sem comando, não tem rumo, lugar nenhum pra chegar.
Escrito por NALDOVELHO às 23h41
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Escrito por NALDOVELHO às 11h17
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Escrito por NALDOVELHO às 11h17
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Escrito por NALDOVELHO às 11h14
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Escrito por NALDOVELHO às 11h12
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PRECISO QUEBRAR O SILÊNCIO
NALDOVELHO
Preciso quebrar o silêncio, libertar o verbo, faz tempo, aprisionado em mim, desentranhar sentimentos, materializar substantivos, enfatizar adjetivos, construir uma oração onde o tempo seja o eterno recomeçar.
Preciso quebrar correntes, revelar segredos, atirar pela janela todos os meus guardados, móveis, tapeçarias, utensílios, quadros, deixar a casa vazia, inclusive de espelhos... Preciso me reconstruir por inteiro.
Preciso telefonar, urgentemente, para aquele amigo que se fez ausente. Preciso saber onde errei e se ainda há tempo, e se não errei: preciso saber aceitar seu silêncio.
Preciso abrir portas e janelas, deixar o vento varrer toda a casa, e que os pássaros invadam a sala, preciso alimentá-los, principalmente de amor.
Preciso me apaixonar outra vez, reler tuas cartas, escrever outras, dizer que te amo, e ainda quê, há tanto tempo, ao meu lado, te abraçar com ternura, tratar de ti com cuidado.
Preciso cuidar melhor do meu jardim, regar na medida certa, flores e folhagens, podar alguns galhos secos, retirar ervas daninhas, partes amareladas, apodrecidas.
Preciso do abraço amigo, dos olhos nos olhos sem máscaras, da palavra que exorcize o medo de falar daquilo que gosto, e ainda assim, deixar bem claro que respeito, quem prefira de um outro jeito e compreendo a vida que têm para viver.
Preciso caminhar por este mundo, respirar o ar que ainda posso, rever lugares, pessoas, cidades, varar madrugadas desertas, saborear frutas colhidas sem pressa, curtir o som das águas de um rio a lapidar pedras, margens, caminhos, sentir o cheiro da chuva, das ervas escolhidas, remédios.
Preciso rever lua cheia e que não seja contaminada pelas luzes que vêm da cidade, e ao amanhecer forasteiro num lugar distante de tudo, entender que a vida podia ser diferente daquela que eu escolhi pra viver. Preciso acreditar que ainda existem muitas vidas a serem vividas e muitos outros lugares por onde eu possa me conhecer.
Preciso caminhar pela praia, sentir a areia entre os dedos, colher pedrinhas, conchinhas, reencontrar aquela sereia, mergulhar com ela nas águas, pedir a benção madrinha! Licença, pro teu filho, vim te visitar.
Preciso morrer daqui a algum tempo, e que seja uma morte sem dor. Que eu encerre como se fosse um poema, escrito por urgências de vida, por inquietudes estranhas, latentes, e eu fiz o melhor que pude! Fui um poeta, ainda que tardio, da linguagem da minha gente; pois sou caboclo, mestiço, cafuzo, visceralmente confuso, sem medidas métricas ou rimas, confessadamente insano pelo muito que semeei.
Preciso comer certas sementes, deixar que elas germinem e, no tempo certo, floresçam livremente lá dentro de mim.
Escrito por NALDOVELHO às 19h31
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Nó cego
NALDOVELHO
As horas tão lentas, a janela entreaberta,
a porta do quarto, faz tempo, fechada
e em cima da mesa um monte de papeis,
rascunhos de versos, idéias desencontradas,
solidão, nostalgia, insônia e inquietude...
Coisas sem importância!
O cinzeiro lotado, ainda cabe um cigarro,
uma xícara de café, doce e encorpado.
Lá fora é outono, aqui dentro chove...
Não consigo entender, o sol se recusa a nascer!
E o coração aprontando, ao contrário das horas,
num ritmo apressado, agora chove lá fora,
meus olhos já não choram, estiagem de sonhos,
os cortes cicatrizados, nada que eu possa fazer!
Madrugada emperrada e o inverno aprisionado,
e um sol de preguiça esboça um movimento,
calçadas e ruas molhadas, chuva fina de junho
e a vida presa num embrulho, nó cego,
que eu não consigo desfazer!
Escrito por NALDOVELHO às 20h08
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CARA DE LATA
Josafá Maia da Costa
Fuck! Fuck! Fuck! Fuck! Fuck! Fuck! Fuck! Fuck! Numa sapata, Cara de lata O corpo esguio, Vem como um rio. Ferro com ferro Emite um berro De fera arisca, Solta Faísca. Abre-se a porta, Nego se entorta, E se esbarra Numa algazarra. Alguns são santos, Outros nem tanto, Uns pro trabalho, Outros, baralho! A nega grita E se agita, Na barafunda Foi mão na bunda. Passa mascate, Passa biscate, De tudo passa Nessa desgraça. O corpo dança, Sua e balança No vai-e-vem Dentro do trem. Massa disforme, Um bolo enorme Numa serpente Cheia de gente Que vai no trilho Em estribilho De sinfonia Sem melodia. E de repente Vai-se um pingente, Surfista incauto Cai lá do alto. Mexe e sacode, Como é que pode? Tanto requebra E não se quebra. Gravata e terno Nesse inferno O quase escravo Sem um centavo. Mão de veludo Tirou-lhe tudo, Vale transporte, Figa da sorte... O sofrimento Nesse tormento De uma hora Termina agora. O fim do mundo, Pedro Segundo É a estação Da redenção.
Escrito por NALDOVELHO às 22h34
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DÊ GRAÇAS JOSAFÁ MAIA DA COSTA
Pelo corpo do pivete, Pela morte a canivete, E os mendigos na praça, Por tudo isto, dê graças.
Pelo bêbado na esquina, Pelo vício da cocaína, E a Justiça, desgraça, Por tudo isto, dê graças.
Pela criança perdida, Pela puta arrependida, E a piada sem graça, Por tudo isto, dê graças.
Pela doença venérea, Pelo pico na artéria, E a juventude que passa, Por tudo isto, dê graças.
Pelas mazelas que tive, Pela miséria em que vives, E o cheiro da fumaça, Por tudo isto, dê graças.
Pela roda de maconha, Pelo povo sem vergonha, E a comida escassa, Por tudo isto, dê graças.
Pela remissão tardia, Pelas tardes sem poesia, E a vida nessa farsa, Enfim, por tudo dê graças.
Escrito por NALDOVELHO às 22h32
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abducción con cumplicidad
líria porto
eu trago a palavra
na ponta da língua
lambida sugada
molhada em saliva
se queres sabê-la
beija-me a boca
depois fecha o bico
que isso é segredo
é pacto é acordo
fechado com lacre
entre bruxa e corvo
abracadabra
Escrito por NALDOVELHO às 23h01
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dívida
líria porto
vestiu-se de triste
bebeu outro uísque
chorou um momento
abriu a ferida
mergulhou sua pena
e com letra anêmica
rabiscou um poema
no vermelho
defloração
líria porto
a terra molhada
exala um perfume
tão próprio das fêmeas
um cheiro de coito
e dentro em pouco
estará inundada
de verdes de brotos
de intumescências
aos céus agradeço
por todas as coisas
as boas as ruins
pois elas permeiam
a vida de todos
e embora aconteçam
a aridez e a seca
a alegria retorna
com a chuva
Escrito por NALDOVELHO às 23h00
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NOSTÁLGICO
NALDOVELHO
A marcha angustiante do tempo, vento que venta apressado e revira meus guardados... Coisas espalhadas por todo o quarto.
Prefiro brisa macia, prenúncio de calmaria, relógios guardados, de preferência quebrados, no fundo de uma gaveta qualquer.
Quero caminhar nostalgia, respirar mansamente poesia, manhãs sonolentas de outono e quem sabe ficar ao teu lado?
Não quero a espera nervosa por um trem que só vive atrasado, chegadas, partidas, começar de novo, sabendo antecipadamente do meu fim.
Quero o silêncio dos inocentes e a eternidade daquele instante. Quero a madrugada complacente, e a cumplicidade desta vida, lua cheia e desinibida, um café tomado sem pressa com música suave ao fundo. Quero tardes mornas e chuvosas, com cheiro de terra molhada, caminhar despreocupado pelas ruas, sem medo de te perder.
Não quero a lágrima disfarçada em poemas escritos saudosos, ainda que sejam tão belos, sangram toda vez que eu tento cicatrizar feridas antigas, mesmo que eu tenha feito por merecer.
Quero voltar ao passado, ou então renascer ao teu lado, sabedor dos meus muitos enganos, poder acertar dessa vez.
Escrito por NALDOVELHO às 00h38
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Elane DE IR
Elane Tomich
E assim vou, como seria,
maturando poesia rosas amarrotadas
entre palavras prensadas.
Desejo em banho-maria
apego à meteorologia
tantas camadas de idas
pra se fazer uma vida.
Do subsolo à montanha
ecoam sons de memória,
numa energia tamanha
do não que fazer,
orgia pra simulacro de glória
Às vezes um gozo extremo,
noutras, breve alegria
caneca de café com leite,
ponto de doce de leite de hoje,
prece suprema!
Tudo esperando a hora
de lá fora acontecer.
Ser e sair sem aviso
no seqüestro de um sorriso
a vida às vezes chora
na alegria de nascer.
Escrito por NALDOVELHO às 21h45
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